Títol: O último saveiro.
Autor: Josep Centelles i Portella
Data original: 2007
Idioma : português Original: castellano
Observacions: Relat
Tenho certeza de que não será o último, mas poderia vir a ser.
Para quem não está familiarizado com o termo, os saveiros são as embarcações tradicionais do nordeste brasileiro que são aptos para a navegação fluvial devido a sua quilha plana. Foram os saveiros que historicamente garantiram o contato entre Salvador e os povoados do Recôncavo baiano. Restam poucos saveiros, mas tivemos a oportunidade de navegar por duas vezes em um deles. Será o último?
Salvador, a cidade que foi capital do Brasil colonial por mais de dois séculos, está assentada no lado norte da grande baía de Todos os Santos. Por um lado tem as águas tranqüilas da enseada que proporciona um magnífico porto natural, pelo outro estão as águas agitadas do atlântico que se .transformam em extensas praias como as que formam parte do sonho idílico de milhares de turistas. Se a própria baía é um magnífico presente da natureza, a região natural a sua volta, conhecida pelo expressivo nome de Recôncavo, é o seu complemento perfeito. O relevo ondulado do Recôncavo baiano além de ter seu solo invejavelmente fértil oferece um ambiente especialmente atrativo para o assentamento humano. Uma multidão de colinas onduladas, irregularmente dispostas apresentam uma paisagem variada y cheia de surpresas. É uma paisagem de caráter humano. Nada da monotonia das paisagens desabitadas ou da agressividade das formações de rocha de corte abrupto. O que predomina é a suavidade das formas e a variedade de paisagens e lugarejos, cada um com sua própria personalidade. Como o texto trata de saveiros a principal característica notória da região é que está perfeitamente drenada pela multidão de riachos, rios e igarapés que são vertidos pela baía. O cenário parece ser feito de propósito para sustentar assentamentos humanos comodamente dispersos, muito arraigados ao território e articulados através da navegação fluvial ou através da baía, com pouca necessidade de sair ao mar aberto.
Uma das festividades mas genuínas de Salvador é a romaria urbana da Lavagem do Bonfim. Cada ano, através de mais de seis quilômetros, milhões de pessoas comparecem para acompanhar, em um clima de festa, a umas dezenas de baianas; mulheres negras, geralmente de considerável deslocamento, vestidas com abundantes vestimentas impecavelmente brancas, que ao final da caminhada lavam com água perfumada as escadaria barroca da igreja de Senhor do Bonfim, residência do padroeiro e bem feitor da cidade . Musica, cerveja, pinga e alegria desbordam por toda parte durante o inevitavelmente ensolarado e esgotador caminho dos romeiros. Apesar de sermos assíduos ao Bonfim e de tudo o que cheira a festa popular, meu amigo Ney e eu este ano renunciamos a romaria. Sem dúvida a razão para esta renuncia tinha que ser poderosa. Si tratava de aproveitar a oportunidade de navegar em um saveiro não como um turista em viajem breve de prazer, se não formando parte da tripulação em uma viajem “real”, de transporte de carga. Fazia tempo que pensávamos nesta possibilidade. Finalmente as articulações de Ney deram resultado e fomos convidados a uma das viagens semanais que faz o saveiro “É da Vida” transportando cerâmica desde Maragogipinho, em pleno Recôncavo, até a estação de São Joaquim, último porto para navegação de cabotagem a vela na cidade de Salvador.
A experiência teve muitas dimensões, pois não só viajamos no espaço de um porto ao outro. Como si entrássemos em um fantástico túnel do tempo, nos transportamos pela vida, pela técnica e pelas rotinas dos saveiros baianos do século XIX. Navegamos com artes, formas e métodos de antes, muito antes, de que se inventara o vapor. Foram duas viagens inesquecíveis para os amantes da história, e para aqueles que se intrigam em conhecer como viviam e como “se viravam” nossos antepassados. Hoje já temos a certeza de que “quem perde as origens perde a identidade” e portanto em um mundo como o de hoje, onde tudo nos leva a uniformidade, conhecer e preservar as raízes e fortalecer a identidade local é tão necessário como o “pão de cada dia”. A viagem resultou especialmente interessante para os que estávamos convencidos de que o turismo com base no local, apegado ao território, de grande qualidade e de pequena escala, tem muito que oferecer na dupla tarefa de preservar a identidade e de gerar emprego e renda.
O compromisso era chegar em Maragogipinho ao meio dia. Por isso saímos de Itapuã, antiga vila de pescadores no Atlântico, bem antes das 8:00h, Tínhamos que atravessar toda Salvador e cruzar a baia em ferry para chegar a Ilha de Itaparica. De lá tomamos um ônibus em Bom Despacho até Maragogipinho. Na verdade chegamos quase as duas da tarde e temíamos que o saveiro já tivesse largado. Por sorte, por cima dos galpões que alojam os fornos e talheres dos oleiros, na orla do rio, sobressaía imponente o mastro de dezesseis metros com a bandeira da Bahia no alto. O “É da Vida” ainda estava lá, cuidadosamente carregado. Carregar o saveiro tinha dado trabalho a um grupo inteiro durante toda a manhã. As mais variadas peças de cerâmica (pratos, jarras, bandejas, vasos para oferecer presentes aos orixás, figuras decorativas, cofres em forma de porco ou de bujão de gás, etc) são carregadas quase peça por peça. O “É da Vida” (que nome tão baiano e tão otimista!) é um dos dois últimos saveiros que ainda operam em cabotagem pelo Recôncavo que dispõe de porão sob o convés. O resto, uns cinco ou seis mais, são embarcações abertas que transportam somente carga a granel, principalmente material para a construção. O porão estava cheia de jarros e peças grandes e sobre a coberta, as vezes em pacotes com várias unidades, estava cuidadosamente colocado o resto, que formava uma grossa capa no convés de mais de meio metro, envolvida em uma lona que amarrava tudo. Sem dúvida a arrumação da carga havia sido feita com esmero. Uma estimativa rápida nos indicava que carregava entre 5 ou 6 toneladas de peças de cerâmica.
Chegamos quando a tripulação estava lavando a louça do café da manhã. No fogão ainda restava café quente. Nos receberam com a típica reação de alegria contida pela timidez que caracteriza o baiano do interior, receoso com o povo da cidade. Ali estavam Luciano, o máximo responsável do navio e da carga, Zarolho o navegante de olhar penetrante e dono de uma larga experiência naquelas águas e manguezais, Paulinho, apelidado Garoto pelo seu aspecto juvenil, e Marivaldo, auxiliares de tripulação. Entre a tripulação havia uma novidade, Luciano permitiu pela primeira vez que seu filho Antonio de uns dez anos lês acompanhasse na viajem. Na verdade o pai estava orgulhoso de começar a ensinar ao filho seu ofício. Foi interessante observar como, ao longo da viajem, os quatro tripulantes ensinavam ao menino, a traves de pequenas brincadeiras ou inocentes enganos, mas sempre com bom humor. Assim, nossa viajem foi também um batizado de mar para Antonio. O menino estava constantemente atento ao que acontecia no saveiro, prestando atenção especial às ordens que, sem o mínimo ar autoritário, dava seu pai a todos os que estávamos ali.
O saveiro estava encalhado no fundo do lamaçal do mangue. Isso fazia parte. Simplesmente tínhamos que esperar que a maré subisse para que o barco flutuasse, coisa que deveria acontecer por volta das seis da tarde. Não só havíamos chegado tarde como também nos deu tempo para comer uma deliciosa moqueca de peixe, visitar uns quantos artesãos ceramistas e tomar umas geladinhas no agradável pátio de um restaurante perto do porto. Para nos refrescar do sufocante calor da meia tarde nos juntamos a meninada do povoado para um banho com piruetas e campeonatos de quem nada mais longe sem respirar e de quem consegue fazer o salto mortal desde a popa do saveiro, que pelo visto é normalmente usada como trampolim pelas crianças de Maragogipinho. Esta larga espera, no entanto, foi o primeiro sinal de estar atados à natureza e das forças da terra, o sol, a chuva, o vento, a lua, as marés. Começávamos a perceber que entrávamos em uma época em que o tempo era plástico. Uma hora não é nada mas dez segundos de desajuste entre a manobra da vela e do timão, podem ser cruciais quando se agrava a tempestade nas águas da baía. Entrávamos no tempo do saveiro.
Pouco a pouco as madeiras do “É da Vida” começam a ranger, o saveiro está zarpando. Zarolho encolhe a frente como se dissesse “gente, chego a hora...”, o sol está baixo, são as seis (que mania a nossa de olhar o relógio para confirmar a posição do sol em vez de fazer o contrario). Bandos de garças brancas passam seguindo o rio em direção ao seus dormitórios nos manguezais mais perto do mar. A meninada se esfumaçou quando suas mães os chamaram para jantar. A tripulação se prepara. Marivaldo e Paulinho se viram com as varas de madeira, metendo-las na lama começam a separar o barco do porto. Nos movemos mas ainda sem vela porque além do vento está calmo este braço do mangue é muito estreito para usa-la. Empurrar a embarcação a base de vara é um trabalho lento e cansativo. Por mais de meia hora avançamos com suavidade e em silencio, quase sem deixar rastro. Nos deslizamos sobre águas tranqüilas entre dois muros de espesso mangue até chegar a margem principal do rio Jaguaripe. Já é noite escura e a lua ainda vai demorar para sair. Luciano da a ordem para içar a vela, pois a pesar do vento estar fraco tem força para empurrar um pouco. É uma vela enorme. Sua cor branca contrasta com a escuridão da noite a pesar de só estar iluminada por milhares de estrelas que saíram a nos contemplar. Agora sim, o saveiro deixa um tênue e silencioso rastro. Mas que pelo vento parece que avançamos empurrados pelo sopro dos espíritos da noite. Os homens trocam poucas palavras. Antonio aprende a destingir o Cruzeiro do Sul, pois ainda que não se oriente pelas estrelas é bonito reconhece-las. Se faz algum comentário e se dá algum sorriso cúmplice, se passa uma rodada de cachaça, na verdade um pouquinho no fundo do copo. É mais ritual que beber álcool. Estes convites se fazem sempre sob a supervisão de Luciano, meia garrafa dá para a travessia inteira.
A calmaria invade tudo e agora se excede. Parece que a saída da lua haja detido o pouco vento que tínhamos. Destingimos a auréola de tênue luz que se forma sobre a vila de Jaguaripe, mas não avançamos, estamos literalmente parados no meio do manguezal, não resta outro remédio que lançar mão do remo pois a profundidade das águas não permite que as varas alcancem o fundo. Essa situação não ocorre com freqüência más as vezes acontece. O saveiro só tem um remo e pouco eficiente, de todas formas os homens vão por turnos e com grande dificuldade avançamos lentamente em direção a áurea de Jaguaripe. Nenhuma queixa, nenhuma maldição, só falta de vento, que é que se pode fazer? Já perto da cidade se levanta um pouco de brisa, em meia hora chegaremos e atracaremos no quebra mar que está debaixo da recém restaurada “Câmara e Cadeia”, a típica sede do barroco brasileiro que acolhe ao mesmo tempo a Câmara Municipal e a prisão local. São as doze da noite, demoramos seis horas para percorrer um trecho que normalmente se faz em menos de dois. Zarolho nos diz que isso não é normal mas tampouco é extraordinário. Um amigo de Ney nos espera na praça com cerveja e bolinhos. A cidade dorme tranquilamente, é tarde para ir para a pousada. Marivaldo insistiu para que dormíssemos em sua casa, sua família que já estava dormindo nos preparou uma cama e nos recebeu com grande hospitalidade.
Pela manhã, depois de um bom café da manhã tivemos tempo de providenciar umas provisões e visitar a cidade. Destacada pela limpeza de suas ruas e jardins, Jaguaripe, como muitas cidades do Recôncavo melhorou bastante nos últimos anos. Já se acabou aquela sensação de decadência que transmitiam os casarões meio abandonados. As reabilitações são a ordem do dia e dominam a paisagem urbana dos sobrados do primeiro terço do século XX, época de ouro do Recôncavo, com fachadas ornamentadas, restaurados e bem reconstruídos. Lá pelas oito, zarpamos com vento alegre em direção ao mar que se abre entre Ponta do Garcês e Cacha Pregos, a ponta más ao sul da ilha de Itaparica. Antes de chegar ao mar aberto viramos ao norte para entrar no canal de Itaparica. São as doze da manhã e entre o vento desfavorável e a corrente da maré que vai em direção contrária a nossa não avançamos. De novo estamos parados. Pouca coisa se pode fazer mais que esperar, assim que lançamos a ancora e acendemos o fogão para esquentar o almoço a base de arroz, feijão e peixe. Para a sobre-mesa uma suculenta jaca que Paulinho conseguiu em Jaguaripe. Nei e eu aproveitamos para dar um mergulho e nadar até uma praia de perto. O pequeno Antonio finalmente consegue a permissão do pai e sob a supervisão dos convidados também aproveita o banho. Devo confessar que minha maior preocupação era me proteger do sol. Os outros além de serem pretos estavam plenamente queimados e acostumados, porque até se permitiam o luxo de andar sem camisa. No meu caso haveria sido terrível, pela manhã perseguia a sombra a vela com obsessão, mas a esta hora, ainda que a vela fora muito grande , a sombra chegou a quase nada. O sol caía com toda sua verticalidade.
Duas horas mas tarde a corrente da maré cessou e o vento se tornou mas favorável. Retomamos a navegação e pouco a pouco as forças da natureza foram ficando a nosso favor com o que conseguimos uma boa velocidade de cruzeiro. Um veleiro esportivo de bandeira francesa nos alcançou e pareceu satisfeito de com somente uma das suas velas serem mais rápidos que nós. Com certeza dobrava a nossa velocidade mas queríamos ver seu desempenho com nossas seis toneladas de carga. A esta velocidade e em plena corrida com o francês, passamos de baixo da ponte do Funil, o viaduto com mais de 20 metros de altura que conecta a ilha de Itaparica com o continente. Antonio ficou maravilhado, parecia que a ponta de nosso mastro chocaria com a plataforma do viaduto. Lá para as cinco da tarde dobramos o cabo norte da ilha e depois de saudar os banhistas das praias vizinhas que começavam a retirar-se, entramos nas águas da baia, águas que já não eram tão calmas como as do canal e do mangue. Longe de afrontar uma tempestade, o vento aumentava e o mar era caudaloso. É destino de todo marinheiro, nem que seja de água doce, se encharcar totalmente com a espuma das ondas que se rompem. Luciano e Zarolho rumaram em direção a Ilha dos Frades, nos apartando da linha reta em um ródio em busca de ventos mais favoráveis. Durante um bom tempo tivemos que avançar em ziguezague, como já havíamos feito pela manhã antes da forçosa parada do meio dia.
Com a rapidez do tropico escureceu de novo quando nos encontrávamos no meio da baia. A ultima parte do trajeto foi um pouco dura, o cansaço se podia notar em todos, mas a disposição de Luciano não decaiu. Estávamos bem encaminhados ao porto quando apareceu outro obstáculo: evitar o choque com algum dos muitos navios que circulavam pela baia. Nós, viajantes do século XIX, não tínhamos de modo algum as luzes de banda regulamentarias (verde a estibordo e vermelha a bombordo) pelo qual tínhamos que aguçar a vista ainda mais na escuridão. Depois de se livrar de um ferry e um cargueiro, veio a ultima manobra, entrar pela estreita abertura do porto, que para um barco a motor é muito fácil, foi executada magistralmente com a coordenação de Zarolho e Luciano ao timão. Atracamos no porto da Estação de São Joaquim por volta das oito da noite. O cansaço de doze horas de navegação foi compensado pelas caras de satisfação pelo trabalho cumprido. Cada homem buscou seu espaço de repouso por perto. Luciano e seu filho Antonio ficaram para dormir no escasso espaço deixado pelos jarros na despensa. Nei e eu tivemos que competir com os últimos bêbados de ressaca do Bonfim para conseguir um táxi e voltar a Itapuã.
No dia seguinte voltamos para ajudar na descarga do saveiro. Os vendedores de cerâmica faziam fila no porto e em seus carrinhos iam levando os pedidos escrupulosamente contabilizados. Supervisada por Luciano uma corrente humana ia lançando e tomando o material, transportando com alegria desde o porão até o porto as peças grandes e pacotes com peças menores. Sempre existe alguma distração que acaba com algum prato quebrado, não existe bronca só um olhar sério e cheio de cumplicidade “um pouco mais de atenção se não te cobrarei os prejuízos” diz Luciano com um pouco de severidade. A tarefa acaba depois do meio dia. Desde o inicio da carga em Maragogipinho foram 36 horas de dedicação ao ritmo do século XIX. Amanhã farão a viagem de regresso, praticamente sem carga, pois o que se consome no Recôncavo desde o fim do século XX chega de caminhão. A tarde será de descanso, de compras pela feira de São Joaquim e, para o pequeno Antonio, sua primeira e fantástica visita a cidade, com subida ao elevador Lacerda incluída.
Depois desta experiência com Nei, nos sentimos mais amigos do Recôncavo Baiano. Acho que teremos que fundar uma associação com este nome.
Josep Centelles i Portella
Barcelona, março 2007
Para saber mais:
Oleiros de Maragogipinho:
http://www.maragojipinho.blogger.com.br/
http://www.ceramicanorio.com/artepopular/maragogipinho/maragogipinho.htm
http://www.jangadabrasil.com.br/revista/junho79/of79006a.asp
Saveiros na Bahia:
http://www.adm.ufba.br/publicacoes/resumos/apesqteses_resumo153.htm
http://caminhosdaterra.ig.com.br/latitude_longitude/129.shtml